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rotweiller.zip.net Escrito por Simone Rasvailer às 01h31 [ ] [ envie esta mensagem ] O jornalismo no banco dos réus Mais de meio século de trabalho, debates, discussões, dores e sofrimentos, avanços e retrocessos, correm o risco de serem sepultados através do ato irresponsável, sem fundamento e de conseqüências gravísimas perpetradas por um promotor de justiça e de uma juíza de São Paulo. Éste mais de meio século é o tempo da lei que regulamenta o exercício da profissão de jornalista exigindo curso superior. A pedido do primeiro, a segunda deferiu uma liminar que desobriga a necessidade de curso superior para exercício da profissão de jornalista. Para o mais leigo dos leitores, universidade e jornalismo parecem uma tentativa de misturar água e óleo: para que, afinal, cursar uma faculdade para trabalhar em jornal, revista, tevê, rádio? Essa profissão não exige só ligar gravadores e microfones e deixar a autoridade falar o que bem entende, e o ouvinte pedir a música que prefere, ou malhar o prefeito por causa da falta de água? Simples, para não dizer simplório, que as coisas - e a própria vida - fossem assim. Pois, se assim fosse, não teríamos grupos internacionais de vigilância, contabilizando os mortos e assinalando os países e as condições em que jornalistas foram assassinados. E o Brasil, infelizmente, endossa essa lista. Basta assinalar Tim Lopes, o jornalista da Globo que mostrou a "traficolândia", o Brasil dentro do Brasil onde se comercializa drogas ilícitas como quem vende carrapinha em quermesse de igreja, e foi esquartejado e seus pedaços queimados em praça pública. São corpos que ilustram os riscos do exercício de uma profissão que exige coerência, discernimento, lucidez, ponderação. Longe de trabalhar com qualquer coisa que cheire a verdade, essa entidade parda tantas vezes reclamada e proclamada, e tão poucas vezes definida, o jornalismo busca uma reflexão antecipada da história, e faz isso acompanhando cotidianamente os atos e os passos da humanidade. Jornalismo, em última análise, é a literatura de uma época, o livro que se escreve pacientemente, todos os dias, em alguns milhares de linhas cotidianas. Disso resulta que maus jornais se constituem em péssima literatura, e infelizmente estamos mais cheios destes do que da boa literatura expressa pela atividade diária dos outros, os bons jornais. Os maus jornais mostram uma guerra contra o Iraque onde a atração maior são os armamentos exibidos pela coroa inglesa e pela insanidade de um Bush. Não é a vida de crianças e velhos, homens e mulheres que desejam tanto Bush quanto Saddam embarcando num míssel rumo a um planeta distante numa viagem sem volta que ocupa as manchetes. Mau jornalismo é contabilizar mísseis e esquecer dos cadáveres. Mau jornalismo é esquecer que as tragédias do terceiro milênio começam sem uma justa causa, com um Iraque invadido à revelia, como se fosse o único ditador do mundo, como se os EUA não beijassem, como beijaram no passado, as mãos de ditadores, ainda manchadas de sangue inocente, tão ou mais cruéis quanto as de Saddam. E a isso, ao retrato destas nuances de realidade expresso em jornais, revistas, tevês e rádios, o promotor a juíza de São Paulo afirmam tratar-se de "liberdade de expressão": ou seja, alegam que a exigência de curso superior para o exercício da profissão fere o princípio constitucional que garante o direito à liberdade de expressão. Morrer na guerra, morrer denunciando atrocidades, viver praticando o exercício, quase matemático, de localizar o consenso em meio ao conflito, sem render-se às lábias e interesses de um ou outro dos lados envolvidos numa mesma questão, aos olhos de tais "autoridades" jurídicas, tornou-se "liberdade de expressão". A estes juízes, eu perguntaria se não seria de bom alvitre exigir o fim do diploma em Direito para ser advogado ou juiz. Tantos juízes vendendo habeas corpus para traficantes ou mantendo desmanches de carros com apoio de setores corruptos da polícia não são bons indicadores de que os cursos superiores de Direito sejam capazes de construir bons juristas, e, continuando a tomar a superfície pelo todo - como fizeram a juíza e o promotor com os jornalistas profissionais -, a Constituição também prevê o direito universal e inalienável à Justiça. Parafraseando um colega jornalista, eu também gostaria de ser juiz, não para ser corrupto mesmo sendo relativamente bem remunerado - melhor que a grande massa de jornalistas profissionais -, mas para entender o que pode passar pela cabeça de um juiz quando dinamita uma profissão regulamentada há 65 anos, e numa decisão tomada, mais uma vez, e para não variar, às vésperas de uma eleição presidencial. A estes senhores da justiça, perguntaria: para que diploma? Escrito por Simone Rasvailer às 20h18 [ ] [ envie esta mensagem ] refletir as vezes compensa.....
Escrito por Simone Rasvailer às 12h57 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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